No caso específico do professor, e como vem acontecendo em outras profissões, há indícios de distanciamento entre o
trabalho prescrito e o
trabalho real, o que pode contribuir para o processo de estresse e a Síndrome de burn out. Arriscaríamos mesmo a afirmar que o mal estar do docente é o subproduto deste descompasso perverso entre o
trabalho pedagógico real e o
trabalho pedagógico prescrito.
O cenário por vezes alienante das condições de trabalho impostas ao professor (trabalho prescrito) resulta também de sobrecargas ocupacionais originárias de uma organização perversa do trabalho humano, como por exemplo: despreparo do professor em desempenhar tarefas típicas da sala de aula; rigidez na escala hierárquica do magistério e da administração escolar; medidas administrativas mais punitivas que reforçadoras; perspectiva duvidosa de crescimento profissional na carreira do magistério; interferência de interesses pessoais e alheios aos objetivos da educação na verdadeira política educacional edificante dos interesses coletivos; não reconhecimento pelo trabalho realizado e outras dificuldades.
Os sofrimentos no trabalho implicam sentimentos de inutilidade, apatia, estagnação, falta de liberdade, falta de realização pessoal, falta de reconhecimento por parte do grupo. Para eliminar as possibilidades de sofrimentos, o trabalhador costuma utilizar-se de estratégias de fuga para se proteger de situações desagradáveis, como, por exemplo, se isolar do convívio com colegas, faltar sistematicamente ao trabalho ou dispensar alunos mais cedo. Observa-se um enorme esforço do trabalhador no sentido de transformar o ambiente aversivo do trabalho prescrito no ambiente agradável e prazeroso do trabalho real, o que muitas vezes lhe custa sacrifícios físicos e mentais.
Todo esse sofrimento relaciona-se com a rigidez na organização do trabalho, com a sua divisão e padronização de tarefas, assim como com a subutilização do potencial do professor, além do descaso pelas suas possibilidades criativas. Como solução extrema, para permanecer no posto de trabalho, o professor desenvolve então os mecanismos de sobrevivência citados, que supostamente modificam suas relações no ambiente de trabalho."
Além do que, nem sempre as autoridades responsáveis pelos sistemas educacionais do País preocupam-se em abrir um amplo e eficaz debate com a finalidade de aproveitar a experiência que os professores adquirem em sala de aula, no convívio direto com o aluno; pois é ali onde tudo o que é falho na macroestrutura da educação e da sociedade, vai manifestar-se sob a forma concreta de perturbações várias no processo ensino-aprendizagem.
Um dos problemas pelos quais a educação no Brasil passa atualmente é a tentativa, por parte dos grupos diretores de políticas educacionais, de democratizar o ensino o máximo possível a fim de conseguir incluir numerosas crianças, adolescentes e adultos que antes não tinham acesso à escola. Nota-se um esforço crescente por parte da escola de abrir suas portas ao todo da sociedade. E é claro que os professores , acham estas iniciativas bastante louváveis, e muito os satisfaz a natureza incluidora desta experiência. No entanto, há que se questionar até que ponto esta inclusão é verdadeira, eficaz e possui de fato a capacidade de trazer a população (antes excluída) para dentro da escola, preparando-a para a vida e para o mercado de trabalho. Seria oportuno indagar se o projeto incluidor está sendo conduzido no sentido de apoiar as pessoas vitimadas por uma contínua exclusão a superar de fato as dificuldades do processo ensino-aprendizagem, ou está apenas velando a situação, multiplicando o número de vagas e mostrando excessiva preocupação em aprovar a qualquer custo ainda que o educando saia da
escola sem a devida maturidade emocional, intelectual e ética para dar conta dos embates da vida e do mercado de trabalho.
Deduz-se que o processo de inclusão na escola brasileira, necessita de muitos aperfeiçoamentos e principalmente investimentos, enquanto disponibilidade de recursos materiais, uma vez que sabe-se bem e não se pode fugir disto: educação custa caro e demanda um esforço considerável de planejamento e organização. Surgem algumas perguntas imediatas: Os critérios usados pelo estado brasileiro para aplicação de verbas vai voltar o foco da sua escolha para as imensas lacunas da democratização do ensino? Disponibilizará a energia humana e os montantes necessários para dinamizar um projeto de inclusão social?Terá esse projeto a profundidade suficiente para modificar os padrões arraigados que caracterizam a sociedade brasileira? São perguntas inquietantes diante da complexa sociedade brasileira,
podendo-se mesmo traduzir a qualidade de complexa pelo termo confusa uma vez que o Brasil apresenta problemas seculares de exclusão, advindos de uma formação social que em suas raízes já seguiu um modelo escravocrata, elitista e centralizador dos recursos materiais nas mãos de poucos.
Sobre o projeto inclusionista como fonte de estresse, comenta Francisco de Paula Nunes Sobrinho, em livro organizado por Marilda Lipp:
"No posto de trabalho docente, os especialistas começam a observar indícios de incompatibilidades entre os limites pessoais do professor diante das demandas da população infantil e adolescente e do sistema educacional, como por exemplo, o comportamento exibido pelo aluno em sala de aula e a peculiaridade do movimento inclusionista em educação."
Nisto, a pesquisa até enseja uma abordagem da maneira como o Brasil vem inserindo-se no processo de globalização, como mais um desdobramento deste modelo inicial. A globalização, sob certos aspectos, está se tornando um fator a mais de estresse para o trabalhador brasileiro, o qual vê-se compelido a entrar numa competição para acompanhar a demanda de conhecimentos, informações, domínios de novas técnicas e tecnologias que até então lhe eram desconhecidas.
E esta competição, longe de assumir feições moderadas, exige fôlego, pois tem de vencer a grande distância sócio-econômica entre o Brasil, e os centros geradores desta mudança. É claro que não se trata de incentivar aqui o isolamento face às tendências do mundo contemporâneo e muito menos pautar-se pelo marasmo existencial e profissional. Os professores não reivindicam como benefício, nenhum comportamento vicioso ou resistente no sentido de vencer a inércia ou os desafios do aprendizado. A queixa vai justamente no sentido de que em inúmeras ocasiões, não se lhes oferecem os meios necessários para vencerem esta defasagem. Os meios requisitados seriam escolas, cursos, equipamentos, treinamentos e tempo para que eles se dedicassem a um novo aprendizado com a calma e a concentração que isto exige.
Veja-se o que descobriu Marilda Lipp em sua pesquisa sobre o assunto:
"Um estressor inesperado quando comecei a conversar com colegas, e que apareceu com muita freqüência, foi a modernização da tecnologia. Professores muito capazes e inteligentes, ainda lutam com grandes dificuldades com computadores, data shows e Internet. O tecnostress, também chamado de stress high tech, ou seja, o estresse gerado pelo avanço tecnológico, sem dúvida está presente na vida de quase todos os professores.
Na verdade, tenostress é a complexa reação que ocorre quando o ser humano tenta e não consegue absorver toda a estrutura operacional de uma máquina em uma tentativa de entendê-la e com ela se comunicar . Ocorre quando as exigências da interação homem-máquina ultrapassam a capacidade do ser humano de entender as mensagens tecnológicas para poder fazer uso do potencial técnico prometido. Tecnostress envolve uma falha na interação máquina-gente, em geral atribuída à dificuldade do homem de entender a máquina.."