Esta repressão dos instintos de fuga ou ataque é a base de uma conversão denominada psicossomatização. Para ensejar a compreensão deste processo, faz-se necessário abordar uma série de fenômenos, fatos e acontecimentos que juntos, disparam a cadeia de reações assim denominada.
Em primeiro lugar note-se a natureza uniforme e inespecífica do estresse. Isto é, o organismo não distingue diferentes estímulos estressores. Ele reage partindo do mesmo padrão quer o estímulo seja um ônibus que deixou o funcionário para trás, um assalto à mão armada, uma notícia ruim ou uma boa notícia.
O corolário disso é que a individualidade passa a ter um papel importante no deslanchar do estresse, pois a pessoa fica um tanto quanto vulnerável tanto em face de estímulos externos quanto de estímulos internos. Pois na presença de um insignificante estímulo real, a individualidade ( na maior parte das vezes inconscientemente), absorve-o com lentes de aumento provocando um "quantum" de estresse que bem poderia ter sido evitado caso o organismo gozasse da propriedade de identificar perigos reais ou imaginários, ou se a pessoa tivesse auto conhecimento suficiente para viver a dimensão real daquele estímulo.
Para construir uma abordagem partindo da constatação da natureza parcialmente psíquica e fisiológica do estresse é imprescindível citar os conceitos de soma e psique e a maneira como estes sistemas interrelacionam-se. O dinamismo e a profundidade desta associação são tão intensos que qualquer oscilação ou modificação psíquica repercute fortemente no soma e este por sua vez envia ao psiquismo os sinais visíveis de seu bem ou mal estar.
A exposição a contínuos e excessivos estímulos estressores sobrecarrega a psique e impede que a energia circule livre e equilibradamente entre os seus componentes. Sem pretender uma profunda descrição da psique, eis aqui, ligeiramente, seus componentes principais, somente para tornar possível a abordagem do que vem a ser a psicossomatização. Grosso modo, tem-se: o id __ substrato instintivo, o superego que incorpora regras, o ego encarregado de manter uma relação ótima entre estes componentes, para garantir o bem estar, a saúde e a continuação da vida.
Ao sentir-se pressionado por conflitos não solucionados, o ego ( que luta para não desintegrar-se), transfere estes conflitos para o soma sob a forma de doenças e distúrbios.
Retomando a questão da resposta Neanderthal, pode-se dizer que o mal estar gástrico vivido pelo empregado foi o resultado da incapacidade do ego de restabelecer o equilíbrio do organismo (homeostase) atingido pela descompostura do patrão. Daí provêm grande parte das doenças, perturbações e distúrbios sofridos pelo corpo.
A doença de uma pessoa está eivada de interferências e criações subjetivas. Quer dizer, assim com cada um arranja seu conflito e sua solução, também influencia e conforma sua própria maneira de adoecer. Esta feição individual está de certa maneira relacionada à herança genética, mas principalmente à natureza de conflitos interiores e à forma como este alguém lida com eles, além da própria história de vida e do órgão ou local do soma atingido. Pois que é comum as pessoas serem mais vulneráveis em diferentes locais do soma. Conforme cita Marco
Aurélio Dias em seu livro "Quem ama não adoece".
" A primeira noção a considerar é a existência no organismo de todos nós, de locais ou órgãos de menor resistência. Locus minoris resistentiae foi a expressão latina utilizada por Fenichel para designar esta debilidade de um órgão. Esta fraqueza relativa seria constitucional ou genética e, estando o organismo sob tensão __ como de resto pode acontecer com qualquer material __é, compreensível que ele se rompa no ponto mais fraco. Essa possível diferença de constituição obviamente, torna os homens desiguais diante de toda sorte de estímulos, sejam eles físicos, psíquicos ou sociais, o que poderia estar na gênese das formas diversas de adoecer."