domingo, 5 de junho de 2011

Psicossomatização

         Esta repressão  dos  instintos  de fuga ou ataque  é a base  de uma conversão denominada psicossomatização. Para  ensejar  a compreensão deste  processo,  faz-se necessário  abordar uma série  de fenômenos, fatos  e  acontecimentos que  juntos,  disparam  a  cadeia  de reações  assim  denominada.
          Em primeiro lugar note-se a natureza  uniforme  e inespecífica do  estresse. Isto é,  o  organismo não distingue  diferentes  estímulos  estressores. Ele reage  partindo do mesmo  padrão  quer o estímulo  seja um  ônibus  que  deixou  o funcionário  para  trás,  um assalto  à mão  armada,  uma  notícia  ruim  ou  uma boa  notícia.
         O  corolário  disso  é que  a  individualidade  passa  a   ter  um  papel  importante no  deslanchar  do  estresse,  pois  a   pessoa  fica  um   tanto quanto  vulnerável  tanto  em face  de estímulos  externos  quanto  de  estímulos  internos. Pois  na  presença  de um insignificante  estímulo real, a individualidade ( na maior parte das vezes  inconscientemente), absorve-o  com  lentes de aumento provocando  um   "quantum"    de  estresse que  bem  poderia ter sido  evitado  caso  o  organismo gozasse  da  propriedade  de  identificar  perigos  reais  ou imaginários,  ou se a  pessoa  tivesse  auto conhecimento   suficiente  para  viver  a dimensão  real  daquele  estímulo.
         Para  construir  uma  abordagem  partindo da constatação  da natureza  parcialmente psíquica  e fisiológica  do  estresse  é  imprescindível  citar  os   conceitos  de  soma  e  psique  e  a maneira  como estes  sistemas  interrelacionam-se.   O dinamismo  e  a profundidade  desta associação  são tão intensos  que  qualquer  oscilação ou modificação  psíquica  repercute  fortemente  no soma  e este  por sua  vez  envia  ao psiquismo os  sinais  visíveis  de  seu bem ou  mal  estar.
         A  exposição  a  contínuos  e  excessivos    estímulos  estressores  sobrecarrega  a  psique  e   impede que  a  energia   circule  livre  e   equilibradamente entre   os  seus componentes. Sem pretender  uma  profunda  descrição da  psique,  eis  aqui,  ligeiramente,  seus  componentes    principais,  somente  para  tornar  possível  a  abordagem  do que vem a ser  a psicossomatização. Grosso modo, tem-se:  o  id __ substrato  instintivo, o superego que  incorpora  regras, o ego encarregado  de  manter  uma  relação  ótima  entre  estes componentes, para garantir  o bem estar,  a saúde  e  a  continuação da vida.
         Ao  sentir-se  pressionado  por  conflitos  não solucionados, o  ego ( que luta  para não desintegrar-se),  transfere  estes conflitos  para  o soma  sob a forma  de  doenças  e  distúrbios.
         Retomando   a  questão  da  resposta Neanderthal,   pode-se  dizer  que o mal  estar  gástrico vivido  pelo  empregado foi  o resultado da  incapacidade  do  ego  de  restabelecer  o equilíbrio do organismo (homeostase)  atingido  pela  descompostura  do  patrão.  Daí  provêm  grande parte  das  doenças,  perturbações  e  distúrbios   sofridos    pelo corpo.
         A  doença  de uma  pessoa está eivada  de  interferências  e  criações  subjetivas. Quer dizer, assim  com   cada  um  arranja  seu  conflito e sua  solução,  também influencia  e  conforma sua  própria  maneira  de  adoecer.  Esta  feição  individual  está  de certa  maneira  relacionada à  herança  genética,   mas   principalmente   à  natureza  de conflitos   interiores  e  à forma  como este  alguém lida com eles,   além  da  própria  história  de vida e  do   órgão ou local  do soma  atingido.  Pois que é comum as  pessoas  serem  mais  vulneráveis  em diferentes   locais  do soma. Conforme  cita  Marco
Aurélio  Dias  em seu livro  "Quem ama  não adoece".

        " A primeira  noção a considerar  é a  existência  no   organismo   de  todos  nós,  de locais  ou órgãos  de  menor  resistência.  Locus  minoris  resistentiae foi a  expressão  latina utilizada por Fenichel  para  designar  esta  debilidade  de  um  órgão. Esta fraqueza  relativa seria  constitucional  ou  genética e,  estando  o  organismo  sob  tensão __ como  de resto  pode  acontecer  com qualquer material __é,  compreensível   que  ele  se  rompa no ponto  mais  fraco. Essa  possível diferença de constituição obviamente,  torna os homens  desiguais  diante de toda  sorte  de estímulos, sejam  eles físicos,  psíquicos  ou  sociais,  o que poderia estar na gênese  das formas  diversas  de adoecer."