segunda-feira, 9 de maio de 2011

Introdução II

                 No caso  específico  do  professor, e  como vem acontecendo  em  outras  profissões, há indícios  de  distanciamento  entre  o  trabalho prescrito e   o   trabalho real, o  que  pode  contribuir  para  o processo  de estresse e a Síndrome  de  burn out. Arriscaríamos  mesmo a  afirmar  que o mal  estar  do  docente é o subproduto   deste   descompasso perverso  entre o  trabalho pedagógico  real  e o  trabalho pedagógico  prescrito.
          O  cenário por  vezes  alienante   das  condições  de trabalho   impostas  ao  professor (trabalho prescrito)  resulta  também  de  sobrecargas  ocupacionais  originárias  de uma  organização perversa   do trabalho humano, como por  exemplo: despreparo  do  professor em desempenhar  tarefas típicas  da  sala de aula;  rigidez  na   escala  hierárquica  do magistério  e  da  administração escolar;  medidas administrativas  mais  punitivas  que  reforçadoras;  perspectiva   duvidosa  de  crescimento  profissional  na  carreira  do  magistério; interferência  de  interesses pessoais e  alheios  aos objetivos  da educação  na  verdadeira  política  educacional  edificante dos  interesses coletivos;  não reconhecimento  pelo  trabalho  realizado  e  outras  dificuldades.
           Os  sofrimentos   no   trabalho  implicam  sentimentos  de inutilidade, apatia,  estagnação,  falta de liberdade,  falta  de  realização  pessoal,  falta  de  reconhecimento  por  parte  do grupo. Para eliminar  as  possibilidades  de  sofrimentos,  o trabalhador   costuma  utilizar-se  de  estratégias  de fuga para  se  proteger  de situações  desagradáveis, como,  por  exemplo,  se isolar  do  convívio com colegas, faltar  sistematicamente  ao  trabalho ou  dispensar  alunos   mais   cedo. Observa-se um  enorme  esforço do  trabalhador  no  sentido  de  transformar  o  ambiente  aversivo  do trabalho prescrito  no  ambiente  agradável   e prazeroso  do   trabalho real, o que  muitas vezes lhe  custa  sacrifícios  físicos   e  mentais.
           Todo  esse  sofrimento  relaciona-se  com  a  rigidez  na  organização  do  trabalho,  com a sua divisão e  padronização de   tarefas, assim  como com  a  subutilização  do  potencial do  professor,  além do  descaso  pelas  suas  possibilidades  criativas. Como  solução  extrema,  para  permanecer  no  posto  de  trabalho,   o  professor  desenvolve  então os mecanismos de  sobrevivência  citados, que supostamente  modificam    suas  relações  no ambiente  de trabalho."
        
           Além do que,  nem  sempre  as  autoridades   responsáveis  pelos  sistemas  educacionais do País preocupam-se  em  abrir  um  amplo  e   eficaz   debate  com  a  finalidade  de  aproveitar  a  experiência  que  os   professores  adquirem   em  sala   de  aula, no convívio  direto  com o  aluno; pois  é  ali  onde  tudo  o que  é  falho  na  macroestrutura  da educação e  da  sociedade,  vai  manifestar-se  sob  a  forma  concreta  de  perturbações  várias  no  processo  ensino-aprendizagem.
            Um dos  problemas  pelos  quais  a  educação  no Brasil  passa   atualmente é a tentativa, por parte  dos  grupos  diretores  de  políticas  educacionais,  de democratizar  o  ensino  o máximo  possível a  fim  de  conseguir  incluir  numerosas  crianças,  adolescentes  e adultos  que antes não tinham  acesso  à  escola. Nota-se  um  esforço  crescente  por  parte  da  escola  de  abrir  suas  portas  ao  todo da sociedade. E é  claro  que  os  professores ,  acham  estas  iniciativas  bastante  louváveis, e muito os  satisfaz  a  natureza  incluidora  desta  experiência. No entanto,  há que se questionar até que  ponto  esta   inclusão é verdadeira,  eficaz  e  possui  de  fato  a  capacidade  de  trazer  a   população (antes  excluída) para  dentro da  escola,  preparando-a  para  a vida  e para  o mercado de  trabalho. Seria oportuno indagar  se o projeto  incluidor  está  sendo   conduzido  no  sentido  de  apoiar  as  pessoas  vitimadas  por   uma   contínua  exclusão a  superar  de fato  as  dificuldades  do  processo  ensino-aprendizagem,  ou está  apenas  velando  a situação,  multiplicando  o  número  de vagas  e mostrando  excessiva  preocupação  em aprovar  a qualquer custo  ainda que o educando saia  da
 escola  sem  a  devida   maturidade  emocional,   intelectual  e ética  para  dar  conta  dos  embates da vida e  do mercado  de  trabalho.
       Deduz-se  que  o  processo  de  inclusão  na  escola  brasileira,  necessita  de  muitos   aperfeiçoamentos   e   principalmente   investimentos,   enquanto  disponibilidade  de  recursos materiais, uma vez  que sabe-se bem e não se pode fugir disto: educação custa caro e demanda  um  esforço  considerável  de   planejamento  e   organização. Surgem algumas  perguntas imediatas: Os  critérios  usados  pelo  estado  brasileiro  para  aplicação  de  verbas  vai  voltar   o  foco  da sua  escolha para  as  imensas  lacunas  da  democratização do  ensino? Disponibilizará  a  energia humana  e os  montantes  necessários  para  dinamizar  um  projeto  de   inclusão social?Terá  esse  projeto    a  profundidade  suficiente para  modificar  os  padrões  arraigados  que  caracterizam  a  sociedade  brasileira?  São  perguntas  inquietantes     diante  da complexa  sociedade brasileira,
podendo-se   mesmo  traduzir  a  qualidade  de complexa  pelo  termo  confusa    uma vez que o   Brasil apresenta  problemas  seculares  de  exclusão, advindos  de  uma  formação  social que  em  suas  raízes  já   seguiu  um  modelo  escravocrata,   elitista e   centralizador  dos  recursos  materiais  nas  mãos  de  poucos.
         Sobre  o  projeto  inclusionista como  fonte  de  estresse,  comenta   Francisco  de Paula  Nunes  Sobrinho, em  livro  organizado  por  Marilda Lipp:

"No posto de  trabalho docente,  os  especialistas  começam  a  observar   indícios  de  incompatibilidades  entre   os  limites   pessoais  do  professor  diante  das  demandas  da  população  infantil  e  adolescente e do sistema  educacional,  como   por  exemplo,  o  comportamento  exibido pelo  aluno  em sala  de aula e a  peculiaridade  do  movimento  inclusionista  em  educação."

        Nisto, a  pesquisa  até  enseja  uma  abordagem  da  maneira  como  o   Brasil  vem  inserindo-se  no  processo  de   globalização, como mais   um   desdobramento   deste  modelo  inicial. A  globalização,  sob  certos  aspectos,  está  se  tornando   um  fator  a  mais  de  estresse  para  o trabalhador  brasileiro, o   qual  vê-se  compelido a   entrar   numa  competição  para   acompanhar  a  demanda  de  conhecimentos,  informações,   domínios  de novas  técnicas  e  tecnologias que  até      então  lhe  eram   desconhecidas.
        E esta competição,  longe  de assumir  feições  moderadas,   exige  fôlego,  pois  tem  de vencer  a  grande  distância  sócio-econômica  entre  o Brasil,  e os  centros  geradores  desta  mudança. É  claro  que não se trata  de incentivar  aqui  o  isolamento  face às  tendências  do  mundo  contemporâneo e muito menos  pautar-se pelo  marasmo  existencial   e  profissional. Os  professores  não  reivindicam como  benefício, nenhum comportamento  vicioso ou  resistente no  sentido  de   vencer  a  inércia  ou  os  desafios  do  aprendizado. A queixa  vai  justamente  no  sentido  de que  em  inúmeras  ocasiões,  não  se lhes oferecem  os  meios  necessários  para  vencerem   esta  defasagem. Os   meios  requisitados  seriam   escolas,   cursos,  equipamentos,   treinamentos  e  tempo para que  eles  se  dedicassem  a um novo  aprendizado com  a  calma  e a  concentração que  isto  exige.
         Veja-se  o que  descobriu  Marilda Lipp em sua  pesquisa  sobre  o assunto:

          "Um  estressor  inesperado quando  comecei  a  conversar com  colegas, e  que  apareceu  com muita  freqüência,  foi  a  modernização  da   tecnologia. Professores  muito  capazes  e  inteligentes,  ainda  lutam  com  grandes  dificuldades  com  computadores,  data shows e  Internet. O tecnostress, também  chamado de  stress  high  tech, ou  seja,  o estresse  gerado  pelo avanço  tecnológico,  sem  dúvida  está  presente  na vida  de quase  todos  os   professores.
           Na verdade,  tenostress é  a complexa  reação  que  ocorre  quando  o  ser  humano tenta  e não  consegue  absorver  toda a estrutura  operacional  de uma máquina em  uma  tentativa  de  entendê-la     e com ela se  comunicar . Ocorre  quando  as  exigências  da  interação  homem-máquina   ultrapassam  a  capacidade  do ser humano  de  entender  as  mensagens  tecnológicas  para  poder  fazer uso  do  potencial  técnico  prometido. Tecnostress  envolve   uma   falha  na  interação  máquina-gente, em geral atribuída à  dificuldade  do homem de  entender a  máquina.."

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